O aumento do consumo de energia no Paraguai pode reduzir o excedente de Itaipu hoje destinado ao Brasil. A avaliação é de especialistas ouvidos na reportagem, após o anúncio de um projeto ligado a infraestrutura de inteligência artificial no país vizinho.
Pelo Tratado de Itaipu, Brasil e Paraguai têm direito à metade da energia produzida pela usina. A parcela não utilizada por um dos países pode ser comprada pelo outro. Segundo a reportagem, o Paraguai vem ampliando o uso da energia que lhe cabe e hoje utiliza cerca de 74% da sua metade, enquanto os 26% restantes são destinados ao mercado brasileiro.
O acordo anunciado pelos Estados Unidos envolve a empresa americana Crusoe, que desenvolve infraestrutura para inteligência artificial, e a desenvolvedora paraguaia Araico. A previsão é de que a primeira fase do empreendimento entre em operação em meados de 2027.
Para Victorio Oxilia, doutor em Energia e professor da Faculdade Politécnica da Universidade Nacional de Assunção, a disponibilidade de energia para o Brasil pode cair de forma relevante, embora não deva desaparecer totalmente. Já Tomaz Espósito, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados, avalia que novos consumidores podem tornar mais complexas as negociações do Anexo C do tratado e reduzir a oferta ao mercado brasileiro no curto prazo.
O Anexo C define as regras financeiras e de comercialização da energia de Itaipu, incluindo a compensação pela parcela que um dos países não usa e disponibiliza ao outro.
Apesar do cenário apontado, os especialistas não veem risco imediato de desabastecimento no Brasil. Não há, até agora, estimativa oficial sobre quanto o projeto pode reduzir a energia disponível ao país nem confirmação de impacto direto na conta de luz dos consumidores brasileiros.
O anúncio também faz parte de uma agenda mais ampla de aproximação entre Paraguai e Estados Unidos, com discussões sobre investimentos em tecnologia, minerais críticos, infraestrutura, logística e segurança.